Voltar a comungar:
existe um caminho de volta
Para quem se afastou da Eucaristia e carrega esse peso em silêncio.
Por Mariana Mota
Há uma cena que se repete em milhares de missas, todos os domingos, e que quase ninguém percebe. No momento da comunhão, a igreja inteira se levanta. As filas se formam, as pessoas se aproximam do altar, voltam aos seus lugares em silêncio. E, em algum banco, alguém permanece sentado.
Pode não haver lágrimas. Pode ser só um olhar baixo, um missal segurado com força, um pensamento que ninguém ao redor imagina. Mas há um peso ali. O peso de amar essa fé, de estar presente todos os domingos, e de sentir que aquele gesto, o mais central de todos, não é mais para você.
Se você se reconhece nessa cena, este texto foi escrito para você. E a primeira coisa que ele precisa dizer é simples: você não está sozinho, e a sua situação talvez não seja tão definitiva quanto parece.
Você não é o único nesse banco
Há muitas pessoas vivendo exatamente isso. Gente que se afastou da comunhão há cinco, dez, vinte anos. Gente que continua indo à missa por amor, mas que carrega em silêncio a sensação de estar do lado de fora de algo. Muitas dessas pessoas nunca conversaram com ninguém a respeito, nem com um padre, por vergonha, por medo de julgamento, ou simplesmente por acreditar que não há nada a fazer.
Essa última crença é a que mais merece ser revista. Porque, em um número grande de casos, há sim algo a entender, e às vezes algo a fazer.
Por que me afastei da comunhão?
O afastamento quase sempre tem uma origem ligada ao casamento. Vale reconhecer as situações mais comuns, sem rótulos e sem culpa.
Quem se divorciou e se casou de novo. A Igreja entende o matrimônio sacramental como um vínculo que não se desfaz. Por isso, quem se separou e formou uma nova união costuma ser orientado a não comungar, não como punição, mas porque a Eucaristia expressa uma comunhão plena com aquilo que a Igreja crê sobre o casamento. É uma situação que machuca, e a Igreja sabe disso.
Quem se casou apenas no civil. Muita gente nunca celebrou o matrimônio religioso e, por isso, sente que não pode se aproximar da comunhão. Essa é uma situação diferente da anterior e, em vários casos, mais simples de regularizar do que se imagina.
Em ambos os casos, o que pesa é a mesma sensação: a de estar numa situação “irregular” diante da Igreja, sem saber se existe saída.
A pergunta que importa: dá para voltar?
Para muitas pessoas, sim. E o caminho começa por um passo que parece pequeno, mas muda tudo: entender a sua situação concreta, em vez de presumir que ela não tem solução.
É aqui que entra um conceito que costuma ser mal compreendido, e que pode ser exatamente o que faltava na sua história: a nulidade matrimonial.
A nulidade não é divórcio religioso. Desfazer essa confusão é o primeiro passo.
O que é a nulidade matrimonial (e o que ela não é)
O divórcio encerra um casamento que existiu. A nulidade faz outra coisa: ela investiga se aquele casamento chegou, na origem, a se formar de modo válido aos olhos da Igreja. Não se trata de desfazer um vínculo, mas de reconhecer, depois de um exame sério e cuidadoso, que talvez esse vínculo nunca tenha se constituído plenamente, ainda que tenha havido amor, anos de convivência e filhos.
A Igreja, portanto, não “anula” o que existiu. Ela declara uma verdade sobre o começo daquela união. E, quando essa declaração acontece, abre-se a possibilidade de regularizar a vida diante da Igreja e, com ela, de voltar à Eucaristia.
O que pode levar ao reconhecimento de uma nulidade
Existem várias situações que, examinadas, podem indicar que faltou algo essencial para a validade do casamento: uma decisão tomada sob pressão, a exclusão consciente de algo fundamental do matrimônio (como a fidelidade, a indissolubilidade ou a abertura à vida), uma imaturidade ou condição que impedia a pessoa de assumir de fato o compromisso, entre outras.
É importante dizer com honestidade: reconhecer-se em uma dessas descrições não significa que haja uma nulidade. Cada história é única e precisa ser olhada com cuidado, à luz do que a Igreja considera. O que essas situações indicam é que vale a pena investigar, não que o resultado esteja garantido.
Um processo mais acessível do que se imagina
Em torno do processo de nulidade existem muitos medos, e quase todos são maiores do que a realidade.
Há o medo de que dependa da boa vontade do ex-cônjuge, o que em geral não é verdade: o processo pode seguir mesmo sem a colaboração da outra parte. Há o medo de que demore anos; desde a reforma feita pelo Papa Francisco em 2015 (o documento Mitis Iudex Dominus Iesus), a Igreja simplificou e agilizou os caminhos, inclusive criando um processo mais breve para certos casos. E há o medo da exposição, quando na verdade tudo corre com sigilo e discrição.
Nada disso elimina o fato de que é um processo sério, que exige paciência e verdade. Mas está muito longe do labirinto intransponível que muita gente imagina.
Sem promessas: cada história é única
Este texto não é, e não pode ser, um parecer sobre o seu caso. A nulidade não é o único caminho de regularização, e nem toda situação se encaminha por ela. O que existe, quase sempre, é um próximo passo possível, e ele raramente é tão complicado quanto o silêncio dos anos fez parecer.
O primeiro passo costuma ser simplesmente conversar: com um padre de confiança, com o tribunal eclesiástico da sua diocese, ou com quem possa ajudar você a entender, sem pressa e sem julgamento, o que se aplica à sua história.
A mesa não foi feita para deixar você de fora
Se há uma coisa que vale levar deste texto, é esta: o desejo de voltar a comungar que você sente não é um problema a ser escondido. É um chamado a ser ouvido. A Eucaristia, no centro de tudo o que a Igreja celebra, nunca foi pensada para deixar ninguém de fora por desinformação ou por medo de perguntar.
Talvez o caminho de volta exista para você. Entender se ele existe é um direito seu, e dá para começar hoje, com uma única conversa.
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